Análise de Mercado · nº 2

Três índices de preço
caem na mesma semana

Macro e negócios com divulgação oficial atrás. O fato vem primeiro, com link e nível de confiança. Onde há leitura, ela vem num bloco marcado — porque opinião e fato não se misturam. Esta edição começa por uma correção da anterior.

Segunda, 31 ago 2026 Corte: 31 ago, 08h BRT
6 itens · 6 com data · 3 com leitura
IBGE · Tesouro · FGV · Câmara

Abertura 1 dia confiança alta · releases oficiais abertos nesta apuração

Uma semana de números para baixo, e a leitura fácil é a errada

Entre 26 e 28 de agosto saíram três medidas de preço, todas negativas. O IPCA-15 de agosto ficou em -0,40%, contra 0,06% em julho, acumulando 3,09% no ano e 4,24% em doze meses. O IPP, preço na porta da fábrica, caiu 0,83% em julho. O IGP-M fechou agosto em -0,22%, com 2,16% em doze meses. Três índices, três metodologias diferentes, mesma direção.

No mesmo intervalo, o IBGE mediu 5,3% de desocupação no trimestre até julho — 0,5 ponto abaixo do trimestre anterior — com massa de rendimento 4,1% maior que a de um ano antes. E o Tesouro registrou superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho, num ano que segue com déficit acumulado de R$ 81,3 bilhões, pior que os R$ 70,3 bilhões do mesmo período de 2025.

A leitura fácil seria somar tudo e falar em desinflação com emprego forte. Ela não se sustenta no detalhe: a maior contribuição negativa do IPCA-15 veio da energia elétrica residencial, -6,25% pela incorporação do Bônus de Itaipu, e da passagem aérea, -13,30% — eventos datados, não tendência. O calendário resolve parte da dúvida rápido: o PIB do segundo trimestre sai em 1º de setembro e o IPCA cheio de agosto em 11 de setembro.

Itens da semana

Observar correção Regulação de IA confiança alta · fonte oficial

Correção: o marco legal da IA tem relator na Câmara desde maio de 2025, e a edição nº 1 disse que não havia ação

O que mudou
Nada no projeto nesta semana — o que mudou é o que este caderno sabe. A edição nº 1, de 24 de agosto, afirmou que o PL 2338/2023 estava “parado na Câmara desde março de 2025” e que “não há ação posterior registrada”. A frase se apoiava apenas na página do Senado. A ficha de tramitação da Câmara registra o contrário: encaminhamento à Comissão Especial em 29/04/2025, designação do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro, em 20/05/2025, e aprovação de requerimentos de audiência pública em 22 e 26 de maio de 2025. A situação atual é “aguardando parecer do relator”, em regime de prioridade e sujeito ao Plenário. A última ação registrada segue sendo a de 26 de maio de 2025.
Por que importa
A leitura publicada na edição nº 1 dizia, na linha “o que me faria mudar de ideia”, que mudaria diante de “designação de relator com calendário na Câmara”. Isso já tinha acontecido quinze meses antes da publicação. A conclusão prática continua de pé — não há data de votação e ninguém deveria calibrar política interna de IA pela expectativa de lei —, mas a base factual dela estava incompleta, e quem leu a edição nº 1 ficou com uma imagem errada do estágio do projeto.
O que fazer
Se você citou a edição nº 1 em alguma apresentação, troque “sem nenhuma ação desde março de 2025” por “com relator designado e parecer pendente desde maio de 2025”. A ausência de data de votação é o ponto que se mantém.
Conferir
Circula um cronograma que previa parecer em 25/11/2025 e votação em dezembro de 2025; ele foi noticiado em 30 de maio de 2025 e nenhuma dessas etapas aparece cumprida na ficha da Câmara. Previsões de calendário para este projeto já erraram uma vez — trate a próxima com a mesma desconfiança.

Leitura — opinião, não fato

O erro da semana passada não foi de fonte ruim, foi de fonte única: um projeto que tramita em duas casas tem duas fichas, e eu li uma. Minha leitura é que a regra prática aqui não é “conferir mais”, é conferir onde o fato mudaria de lugar — e num projeto remetido de uma casa para outra, o lugar é sempre a casa que recebeu.

O que me faria mudar de ideia: a apresentação do parecer do relator na Comissão Especial, que passaria o projeto de “parado com relator” para “em deliberação” e mudaria o que se pode dizer sobre prazo.

Câmara dos Deputados · ficha de tramitação do PL 2338/2023 Senado Federal · PL 2338/2023

Observar publicado 26 ago Inflação confiança alta · fonte oficial

IPCA-15 tem deflação de 0,40% em agosto, com energia elétrica residencial caindo 6,25%

O que mudou
Em 26 de agosto, o IBGE divulgou o IPCA-15 de agosto de 2026: -0,40% no mês, ante 0,06% em julho, com 3,09% acumulados no ano e 4,24% em doze meses. Três grupos puxaram a queda: habitação -1,41% (-0,22 ponto percentual de impacto), transportes -1,00% (-0,20 p.p.) e alimentação e bebidas -0,57% (-0,12 p.p.). O maior impacto negativo isolado foi a energia elétrica residencial, -6,25%, pela incorporação do Bônus de Itaipu — ainda assim a bandeira tarifária amarela seguiu acionada, com acréscimo de R$ 1,885 a cada 100 kWh. Em transportes, passagem aérea -13,30% e combustíveis -1,43% (etanol -3,63%, gasolina -1,23%, diesel -0,71%). O período de referência foi 16/07 a 15/08.
Por que importa
O IPCA-15 é a prévia que chega antes do IPCA cheio, em 11 de setembro, e antes da reunião do Copom de 15 e 16 de setembro. Contrato indexado tem reajuste calculado sobre número publicado, não sobre percepção de que “os preços caíram”.
O que fazer
Conferir qual índice está escrito em cada contrato de serviço recorrente antes da próxima renovação. IPCA, IPCA-15, INPC e IGP-M não são o mesmo número, e nesta semana a distância entre eles ficou visível.

Leitura — opinião, não fato

Boa parte do que derrubou o índice tem data marcada de entrada e de saída: o Bônus de Itaipu na conta de luz e a passagem aérea, dois itens que sozinhos respondem pela maior parte do movimento. Para mim, este -0,40% descreve alívio de composição, não desinflação difusa — e citar a manchete sem abrir habitação e transportes é o caminho mais curto para uma conclusão errada numa reunião.

O que me faria mudar de ideia: o IPCA cheio de agosto, em 11 de setembro, mostrar queda também nos grupos que não dependem de energia e passagem aérea — serviços em particular.

Agência IBGE · release do IPCA-15 de agosto IBGE · IPCA-15

Observar publicado 27 ago Trabalho e renda confiança alta · fonte oficial

Desocupação em 5,3% no trimestre até julho, com massa de rendimento 4,1% maior que a de 2025

O que mudou
A PNAD Contínua mensal, divulgada em 27 de agosto, estimou a taxa de desocupação em 5,3% no trimestre maio-julho de 2026 — queda de 0,5 ponto percentual ante fevereiro-abril (5,8%) e de 0,3 ponto ante o mesmo trimestre de 2025 (5,6%). A população ocupada foi estimada em cerca de 103,3 milhões (+1,0% no trimestre, +0,9% em um ano). O rendimento médio real habitual ficou em R$ 3.762, estável ante o trimestre anterior e 3,3% acima do de um ano atrás. A massa de rendimento real somou R$ 383,5 bilhões, estável no trimestre e 4,1% maior em um ano — acréscimo de R$ 15,1 bilhões.
Por que importa
Massa de rendimento é a variável que sustenta consumo das famílias, e ela cresceu no ano sobretudo por haver mais gente ocupada: o rendimento médio ficou estável no trimestre. Para quem projeta demanda, os dois movimentos não são intercambiáveis — um depende do mercado de trabalho continuar absorvendo, o outro dependeria de salário real subindo.
O que fazer
Nenhuma ação. A próxima leitura, referente a agosto, sai em 29 de setembro — vale anotar antes de marcar qualquer apresentação que dependa de número de emprego.

IBGE · Indicadores PNAD Contínua mensal, julho de 2026 (PDF) IBGE · PNAD Contínua

Observar publicado 27 ago Contas públicas confiança alta · fonte oficial

Governo central tem superávit de R$ 10,8 bilhões em julho, e o ano segue com déficit de R$ 81,3 bilhões

O que mudou
O Tesouro Nacional divulgou em 27 de agosto o resultado do Governo Central de julho de 2026: superávit primário de R$ 10,8 bilhões, ante déficit de R$ 59,1 bilhões em julho de 2025. No mês, a receita líquida cresceu 7,7% em termos reais (R$ 16,1 bilhões) e a despesa total caiu 20,7% em termos reais (R$ 56,4 bilhões). No acumulado de janeiro a julho, porém, o resultado é de déficit primário de R$ 81,3 bilhões, contra R$ 70,3 bilhões no mesmo período de 2025, com receita líquida +5,9% real (R$ 84,0 bilhões) e despesa total +6,2% real (R$ 92,9 bilhões).
Por que importa
Resultado fiscal é o pano de fundo de qualquer conversa sobre juro e sobre orçamento público — inclusive de contratação em estatal, fundação e órgão que dependem de liberação. E é o número que costuma aparecer com apenas metade da história contada: o mês ou o acumulado, conforme convenha a quem cita.
O que fazer
Se for citar, cite os dois: o superávit do mês e o déficit acumulado do ano. Um número sozinho, aqui, é meia verdade.
Conferir
Uma queda de 20,7% real na despesa de um único mês costuma envolver efeito de base ou deslocamento de pagamento entre meses — a nota do Ministério da Fazenda não detalha a composição. Antes de tratar o superávit de julho como mudança de patamar, abra o relatório do Tesouro.

Leitura — opinião, não fato

O mês e o ano contam histórias opostas, e a do ano é a menos citada: o acumulado até julho piorou em relação a 2025 (R$ 81,3 bilhões contra R$ 70,3 bilhões). Minha leitura é que um único mês com despesa 20,7% menor em termos reais diz mais sobre calendário de pagamento do que sobre trajetória de gasto — e que quem montar slide com o superávit de julho isolado vai ter que explicar o acumulado quando alguém perguntar.

O que me faria mudar de ideia: o resultado acumulado até setembro, quando publicado, ficar melhor que o do mesmo período de 2025 — o que indicaria mudança de patamar, e não deslocamento entre meses.

Ministério da Fazenda · balanço do Tesouro Nacional, julho de 2026

Observar publicado 28 ago Indústria confiança alta · fonte oficial

Preço na porta da fábrica cai 0,83% em julho, segunda queda mensal seguida

O que mudou
Em 28 de agosto, o IBGE divulgou o IPP — Índice de Preços ao Produtor das indústrias extrativas e de transformação referente a julho de 2026: -0,83% frente ao mês anterior. Segundo veículos que reproduziram o release, junho havia registrado -0,81%, o que faria de julho a segunda queda mensal consecutiva.
Por que importa
O IPP mede preço na saída da fábrica, antes de distribuição e varejo — é custo que ainda não chegou ao consumidor. Dois meses seguidos de queda no produtor, com IPCA-15 negativo no mesmo período, dizem que a pressão de custo industrial não é o que está sustentando preço na ponta.
O que fazer
Quem reajusta contrato de fornecimento por índice de custo industrial deve conferir qual série o contrato cita — IPP geral, IPP por atividade ou IPA da FGV dão números diferentes para o mesmo mês.
Conferir
Dois pontos ficaram por fechar nesta apuração: o acumulado no ano e em doze meses não estavam legíveis na página do IBGE, e a variação de junho (-0,81%) vem de imprensa reproduzindo o release, não da página do instituto. Para usar a série, puxe as tabelas no SIDRA antes.

IBGE · IPP, julho de 2026 IBGE · SIDRA, tabelas do IPP

Observar publicado 28 ago Contratos e aluguel confiança média · veículo secundário reproduzindo a FGV

IGP-M fecha agosto em -0,22% e acumula 2,16% em doze meses

O que mudou
A FGV divulgou em 28 de agosto o IGP-M de agosto de 2026: -0,22% no mês, 1,85% acumulados no ano e 2,16% em doze meses. É o índice usado como referência de reajuste em contratos de aluguel que fazem aniversário no mês seguinte.
Por que importa
Boa parte dos contratos de locação comercial e de serviço continuada é indexada ao IGP-M. Com o IGP-M em 2,16% em doze meses e o IPCA-15 em 4,24% no mesmo recorte, contratos ancorados num ou noutro índice estão andando em velocidades bem diferentes — e a diferença aparece direto na margem.
O que fazer
Levantar quais contratos ativos usam IGP-M e quais usam IPCA antes da próxima rodada de renovação. A comparação entre os dois índices em doze meses é o argumento — para os dois lados da mesa.
Conferir
O portal da FGV não abriu nesta apuração: a leitura do robots.txt do domínio falhou por erro de handshake TLS, e a página oficial da divulgação ficou inacessível. Os três números acima vêm de página que reproduz a divulgação da FGV, não da FGV. Antes de aplicar em reajuste de contrato, confirme no portal da fundação.

Divulgação da FGV reproduzida · QuintoAndar FGV · IGP-M de agosto de 2026 (não abriu nesta apuração)

O que este caderno faz, e o que não faz

Ele tem duas camadas, separadas de propósito. A camada de fato é a mesma do Boletim Salesforce: o que foi divulgado, por quem, em que data, com link e nível de confiança. A camada de leitura é opinião — vem sempre dentro de um bloco marcado Leitura, nunca misturada ao fato. Se não está num bloco de leitura, não é opinião minha: é o que a fonte diz.

  • Esta edição corrige a anterior. A edição nº 1 afirmou que o PL 2338/2023 não tinha ação registrada desde março de 2025, apoiada só na ficha do Senado. A ficha da Câmara mostra relator designado em maio de 2025. O item de correção está acima, com o texto original citado ao lado do corrigido.
  • A leitura não prevê número. Não diz onde a inflação, o juro ou o câmbio vão parar. Ela interpreta o que já foi publicado.
  • Toda leitura termina dizendo o que a contradiria. Se essa linha não estiver lá, o bloco não deveria ter sido publicado.
  • Não é recomendação de investimento, de crédito ou de decisão financeira. Para decidir qualquer coisa com um número daqui, confirme na fonte primária — os links estão em cada item.
  • Nesta edição, o portal da FGV não abriu: a leitura do robots.txt do domínio falhou por erro de handshake TLS. O IGP-M entrou com confiança média, por veículo que reproduz a divulgação, e com a ressalva escrita — não foi promovido a fonte oficial por conveniência.
  • O IPP entrou incompleto: o acumulado no ano e em doze meses não estavam legíveis na página do IBGE nesta apuração, e a variação de junho vem de imprensa secundária. Está dito no item.
  • O site do Banco Central continua fora do alcance desta apuração por depender de JavaScript. Nenhum número de política monetária entrou nesta edição por conta disso — a reunião de 15 e 16 de setembro aparece só como data de agenda.
  • Fonte paga fica de fora. Relatório de casa de análise, terminal e assinatura não entram — o que não dá para linkar, não entra.
  • Nada específico de cliente, em nenhuma edição de nenhum dos dois cadernos.